Notícias: Aconteceu! Pedro Camargo: o curioso telegrafista de Tibagi

on 03/06/2011 - 18:44 4763 reads Em 1835 nascia uma tecnologia que revolucionou a comunicação no mundo. Usados na transmissão de mensagens gráficas a partir de códigos, os telégrafos abriam naquela época um canal de diálogo instantâneo e inovador. Mas, somente 90 anos depois é que o invento dos americanos Joseph Henry e Samuel Morse, chegou a Tibagi, um acontecimento que ficou registrado na história da cidade.



A implantação da linha telegráfica entre Castro e Tibagi começou em 1925. No ano seguinte, a Câmara de Vereadores autorizou o prefeito a auxiliar a construção da linha e em 14 de julho de 1926, com pompa e muita comemoração, foi inaugurada a Agência do Telégrafo Nacional junto ao posto de Correios. Testemunharam a solenidade o prefeito Leopoldo Leonel de Sá Mercer, Edmundo Alberto Mercer, coronel Frederico Martins, Generoso Borges, João José Mercer e Ernesto Kugler Sobrinho. Estava aberto o canal de comunicação com a cidade de Castro.



Francisco Ferreira foi o primeiro telegrafista a operar o moderno equipamento. Permaneceu por três anos no posto e foi substituído por Jeronimo Francisco Pereira, Saturnino Fernandes, Wilson de Sá Martins e Pedro Camargo, personagem que reserva parte especial nessa história. Por mais de 30 anos, entre as décadas de 1940 e 1970, Pedro Camargo permaneceu à frente do telégrafo e tornou-se a principal fonte de informações sobre o 'mundo externo'.



Ainda muito jovem, Camargo aprendeu o Código Morse com o pioneiro Jeronimo Pereira. Negro e com baixa escolaridade, quebrou barreiras conquistando o posto oficial de telegrafista dos Correios e Telégrafos em Tibagi com uma das melhores notas, entre os seis primeiros colocados, no concurso federal.



Na sala em frente à residência da família, na esquina entre as ruas Machadinho e Marechal Floriano (atual Ernesto Kugler), já operava o equipamento mesmo antes de ser contratado. “Foi com dificuldade e esforço que conseguiu abrir as portas. Ele mostrava interesse e, apesar de ter estudado pouco, tinha muita sabedoria”, descreve seu filho Evaldo Merits Camargo.

A nomeação aconteceu muito tempo depois, em 13 de agosto de 1943, quando passou pela prova de habilitação e recebeu o Certificado 799 do Departamento Administrativo do Serviço Público da Presidência da República.



O posto do Telégrafo então mudou de lugar e Pedro Camargo passou a atender numa saleta da residência da Agente Postal de Tibagi Clarice Camargo do Amaral Martins, na esquina das ruas Herbert Mercer e Ana Beje. “Foi trabalhando com dona Clarice e aprendendo. O telégrafo era a paixão dele e por muito tempo fez todo o serviço sozinho. Ficou 35 anos ali, sem nunca tirar férias porque não havia quem o substituísse”, lembra Evaldo.



O informante

Neri Assunção, diretor do Museu Histórico Desembargador Edmundo Mercer Júnior, onde estão algumas peças do antigo telégrafo, considera que a atuação do funcionário Pedro Camargo foi de grande importância. “Porque as estradas que ligavam Tibagi a Castro e Ponta Grossa, que eram centros urbanos mais próximos, eram péssimas. Quando chovia, tornavam-se intransitáveis, de modo que até mesmo o correio paralisava. O único meio de comunicação era o telégrafo, porque não existiam telefones, rádios, nem televisão”, ressalta.



Entre um recado e outro, quando sobrava algum tempo, o telegrafista de Tibagi também aproveitava para buscar mais informações. “Conversava com outros telegrafistas de Castro e Ponta Grossa e ficava informado sobre as coisas que aconteciam fora. Quando chovia para lá, ele já sabia, quando um trem descarrilava, ficava sabendo. Ele era sempre o primeiro a saber e repassar as notícias de fora que chegavam a Tibagi”, diz Evaldo.



O confidente, anedotista e poliglota

Pedro Camargo era também um confidente. “Ele recebia pelo Código Morse um recado e transcrevia num telegrama. Sabia tudo o que acontecia com as pessoas mas era muito discreto. Mantinha sigilo total e não comentava nem conosco, lá em casa”, conta Evaldo. Era ainda um bom conselheiro e sabia ouvir. “O pai era calmo, gostava de escutar e orientar as pessoas. Ele também gostava de contar anedotas e causos. Contava as histórias dos conhecidos e fazia todo mundo rir. Era interessado, gostava de aprender palavras em outras línguas e quando saía à rua, cumprimentava os polacos na língua deles, falava inglês com os padres americanos, sabia latim, sabia muito”, conta Evaldo.

Outro costume do tranquilo telegrafista era assoviar. “Quando a gente escutava uma música de banda assoviada na rua, já sabia que o pai tava chegando”. Era um homem bom. “Não por ser meu pai, mas ele era muito bom, tinha o costume de visitar as pessoas, oferecer ajuda”.



O engenheiro e sábio


Pedro Camargo também tinha facilidade para lidar com as engenhocas tecnológicas da época. “Para ligar o telégrafo de batida seca, tinha que gerar energia. Então ele usava vidros grandes, colocava uma solução de sulfato de cobre, uma roseta de zinco e lâmina de cobre para gerar energia. Enchia uns 50 vidros mais ou menos e fazia uma bateria”, relata o filho. “Na época não tinha energia elétrica e nem as baterias que temos hoje”.

“Era uma pessoa que eu admirava pela sabedoria. Como era de cor negra, tudo era mais dificultoso, mas ele conseguiu abrir as portas pela honestidade e pelo interesse”, realça Evaldo.

Pedro Camargo morreu aos 85 anos em 2002 e passou a ser nome de rua em Tibagi, além de uma importante referência na história da comunicação.


Herança

O fotógrafo Christian Camargo herdou do avô Pedro Camargo o mesmo interesse pelas tecnologias e pela comunicação. Desde criança, a brincadeira preferida era desmontar e montar os brinquedos atribuindo a eles movimentos e novas funções. Na juventude, montou em casa sua própria estrutura de rádio-comunicação com uma grande antena com 18 metros de altura e 14,6 de comprimento. “Talvez a maior do Brasil na faixa de frequência de 27 a 28 Mhz”, como conta o fotógrafo.

O gosto pelo meio de comunicação fez do neto de Pedro Camargo um radioamador com alguns prêmios conquistados, como de estação mais bem pontuada no CB 144 em 2004. “Fui terceiro e segundo lugar nos anos anteriores. É uma competição em que ganhava quem fizesse mais contatos”, explica.

Aliado às novas tecnologias, não se desliga da internet e das câmeras fotográficas, mas mantém o hábito de se comunicar pelo rádio. “Aprendi o código morse com o meu avô e usei para passar na prova que dá o título de radioamador. Hoje não uso muito, mas o código continua sendo o melhor método analógico de comunicação via rádio, porque é universal e pode ser interpretado por pessoas que estão em qualquer parte do mundo e que falam línguas diferentes”.

A mais recente paixão também é herança do avô. “Ele andava por aí com uma câmera fotográfica e não virei fotógrafo de graça”, brinca. Mas de todos os exemplos deixados por seu ídolo, Christian não exita em afirmar: “conhecimento, o gosto pela leitura, a curiosidade pelo desconhecido. Meu avô tinha livro de geografia, história, inglês, dicionários, livros de filosofia, medicina. De tudo um pouco ele sabia”, completa.


Aconteceu!

Para valorizar o acervo do Museu e divulgar os acontecimentos que fizeram história em Tibagi, toda semana o diretor Neri Assunção, em parceria com a Assessoria de Comunicação da Prefeitura, desenvolve textos que relatam fatos marcantes na coluna Aconteceu!, no site (www.tibagi.pr.gov.br)

O Museu Histórico oferece trabalhos desenvolvidos em pesquisas e exposições temporárias. Permanece aberto de terça à sexta-feira das 8 horas às 11h30 e das 13 horas às 17h30. Sábados e domingos, a visitação pode ser feita das 9 horas às 11h30 e das 13h30 às 17 horas. Para agendamento, o telefone é (42) 3916-2189.


Texto: Emanoelle Wisnievski
Pesquisa: Neri Aparecido Assunção
Fontes: BEJES, Nylzamira Cunha. Teu Nome é História. Planeta, 2007.
MERCER, Luiz Leopoldo e MERCER, Edmundo Alberto. Histíria de Tibagi.
Imagens: Christian Camargo e Acervo Museu Histórico