Notícias: Maior incêndio do Paraná aconteceu há 50 anos

on 23/08/2013 - 14:15 4397 reads ACONTECEU!
Maior incêndio do Paraná aconteceu há 50 anos




Nos últimos dias, incêndios ambientais atingiram áreas bem próximas ao centro da cidade. O fato motivou a coluna de fatos históricos, ‘Aconteceu!’, a relatar o trágico incêndio que há exatamente 50 anos deixou o Paraná em estado de alerta. Uma série de queimadas ocorreram entre os meses de agosto e setembro de 1963 causando uma tragédia histórica com 110 mortos e cerca de 10% do território do estado consumido pelas chamas. Tibagi, na ocasião, transformou-se numa central de queimados, recebendo no Hospital Luiza Borba Carneiro pacientes de todo o Paraná, vítima de queimaduras.




O flagelo foi resultado da combinação de baixas temperaturas com uma estiagem prolongada. Os campos estavam secos em razão das fortes geadas daquele ano. Como era de costume, os lavradores faziam pequenas queimadas para limpar o terreno. Não demorou muito para o fogo avançar sem controle.

Ao todo, 128 cidades das Regiões Norte, Central e dos Campos Gerais foram afetadas. Dois milhões de hectares foram completamente devastados ao longo de dois meses. “Foram 20 mil hectares de plantações, 500 mil de florestas nativas e 1,5 milhão de campos e matas secundárias”, relata o pesquisador Antônio Carlos Batista, professor de Engenharia Florestal da Universidade Federal do Paraná. Foi o pior incêndio registrado no Brasil e um dos maiores do mundo.



Aproximadamente oito mil imóveis, entre casas, galpões e silos, viraram cinzas. Cerca de 6 mil famílias – a grande maioria formada por trabalhadores rurais – ficaram desabrigadas. Tratores, equipamentos agrícolas e incontáveis veículos foram atingidos pelo incêndio. Em 14 de agosto de 1963 foram noticiados os primeiros focos de incêndios em Guaravera, Paiquerê e Tamarana, que eram distritos de Londrina. As chamas se estenderam a Sengés e Jaguariaíva. Ortigueira teve 90% de área queimada. Mais de 70% das reservas florestais das Indústrias Klabin de Papel e Celulose, cultivadas em uma fazenda de Tibagi, se perderam.

Na região de Tibagi as labaredas se aproximavam, a população entrou em pânico, uma correria pelas ruas da cidade, em direção à igreja, muitas pessoas alarmavam “Tibagi vai ser consumido em chamas”. Outros moradores se mobilizaram para ajudar a conter as chamas.



Tibagi

Em 24 de maio de 1960, o então governador do Paraná Moisés Lupion inaugurou o prédio do Hospital Luiz Borba Carneiro. Por dois anos, tudo permaneceu fechado, mas depois o HLBC teve seus leitos preenchidos por pacientes do Paraná inteiro, vítimas dos graves incêndios.

O médico Eugênio Carneiro empenhou 40 anos de sua vida ao atendimento no HLBC e tornou-se um símbolo de coragem para os companheiros de trabalho. “Eu cheguei em Tibagi recém-formado em medicina em 1965. Era o único médico na cidade e permaneci por dez anos sozinho. O hospital estava cheio de queimados dos grandes incêndios que houve no Paraná”, recorda.

O Hospital Luiz Borba Carneiro viria a ter uma estrutura para receber as inúmeras pessoas vítimas dos incêndios. Uma central de queimados foi instalada e recebia as vítimas da catástrofe. O governo enviou ajuda: dois médicos e dois enfermeiros norte-americanos que completaram uma equipe do então Estado da Guanabara.

“O Hospital de Tibagi chegava a atender queimados de todo o Paraná. Houve uma explosão em Campo Mourão e num dia recebemos quatro ambulâncias cheias de queimados. E era um único médico pra atender todo mundo. Foi difícil”, confessa o médico.

José Noir Ferreira Bueno, funcionário do hospital por 31 anos, relembra desse período com muito sofrimento. “Aqui foi feito o centro de triagem dos queimados. Eu recebia todos aqui. Inclusive nós tivemos um queimado que ficou parecendo uma múmia, porque era enrolado de faixa inteirinho. Tinha uma enfermeira americana dia e noite pingando o remédio com conta gota na boca dele”.

A auxiliar de enfermagem Tereza não esquece a dor das pessoas. “A gente entrava para fazer curativo de queimados como numa sala de cirurgia. Era assim naquele tempo. Os queimados eram muitos, porque eram crianças, adultos, jovens, adolescentes”.

Com tamanho desafio e tantas dificuldades, quem atuava no hospital naquela época precisava muitas vezes conter a emoção e simplesmente seguir trabalhando. “Era muito triste fazer curativo neles, mas a gente fazia esforço para não chorar né? Porque eles não podiam ver que a gente tava chorando”, conta Tereza. “Muitas crianças, também queimadas, elas saíram com sequelas das queimaduras, mas saíram andando, abraçando a gente, felizes”.



Lembranças

Quem se recorda também deste período é Lauri Aleixo, antigo morador de Tibagi e que era criança quando o fato aconteceu. “Naquela ocasião, não tinha televisão em nossa região. Ouvíamos emissoras de rádio, na maioria delas de São Paulo e de grandes capitais, e desde então comentavam bastante que o Paraná estava uma fogueira”, recorda. “Lembro que tudo estava seco em função de uma geada forte que caiu no período do inverno e em seguida ocorreu uma estiagem bastante prolongada e pegava fogo facilmente”, descreve.

“Em nossa propriedade vizinhos que trabalhavam com meu pai, saíram ‘meio encrencados’ com ele, e talvez com o desejo de nos prejudicar colocaram fogo na vegetação, o que fez um grande estrago. O fogo além de queimar as pastagens que eram recém formadas, rodeou as instalações do curral e para não queimar outras áreas tivemos muita dificuldade para combater o fogo”, relata. “Em propriedades vizinhas à nossa, queimaram muitos barracos de moradores e muitos animais que após o incêndio foram encontrados carbonizados”, conta o aposentado.

Lauri lembra de outro fato também acontecido neste período. “Um dos moradores decidiu ir até o seu rancho para acudir seus pertences e o fogo o cercou, deixando-o sem saída. Para não morrer queimado saltou dentro de um poço. A caixa do poço era de madeira e também pegou fogo e caíam pedaços de madeira em chamas sobre ele, que para se proteger mergulhava na água para amenizar a pancada, porém mesmo assim as madeiras batiam nele”, aponta.



E os incêndios aumentavam no Paraná...

Os bombeiros florestais eram escolhidos entre os próprios operários e treinados a apagar fogo, batendo com varas, cortando macega a foice ou ateando contra fogo na zona de sucção.

O rádio comunicava que uma frente de fogo com 80 quilômetros de extensão aproximava-se das plantações da Fazenda Monte Alegre, o mato inteiro parecia arder. Na fábrica, cerca de trezentos tambores de óleo combustível estavam armazenados, entre muitos outros materiais facilmente inflamáveis. Não havia para onde transportá-los com tudo queimando ao redor. Das fazendas dos arredores vinham, diariamente, notícias de mortos pelo fogo e ao hospital de harmonia chegaram os primeiros queimados, provenientes de Ortigueira.



O Coronel Mesquita estabeleceu seus planos de defesa da Fábrica em Harmonia com pessoal treinado, a aparelhagem em ordem, os carros prontos para ação, com poderosos hidrantes preparados para fornecerem água a jatos fortes.

O fogo atingiu as primeiras casas de morada, o povo saiu pelas ruas, mudo de pavor, sem saber o que fazer, de olhos secos. Homens carregavam rádios, móveis, cadeiras, utensílios; mulheres levavam trouxas com roupas, cestas de mantimentos. As crianças andavam com cachorrinhos, apertados aos braços, sem ter para onde ir. Vendo a primeira casa da cidade em chamas, o ar sufocando, a fumaça baixa a asfixiar. Ajoelharam-se nas ruas, nas calçadas, a rezar, sem pejo, sem cerimônia.



Cerca de duzentos caminhões retiraram as pessoas, seus pertences e os animais dos acampamentos e corte e lenha ou plantações de árvores. Traziam para o grupo escolar e clubes em Harmonia. Um grupo de voluntários ia diretamente preparar e distribuir leite que o Governador Ney Braga solicitara ao Presidente Kennedy e que em 48 horas após, chegava num avião cargueiro, ao aeroporto em Curitiba.

As voluntárias prestavam serviços nos lugares mais distantes do mato, ao saírem, despediam-se dos maridos; os carros ficavam estacionados, inúteis, parados em frente das casas, com bagagem na porta malas, prontos para viajar. Viajar para onde? Quando todas as estradas estavam barradas por colunas de fogo, vários carros tentaram sair pela estrada ainda livre, de Piraí. Não passaram de Ventania. O fogo, de ambos os lados, os fez retroceder para dentro da Fazenda, onde o serviço de combate persistia de forma organizada sem pânico.



Na noite de 18 de setembro, enfumaçada como anteriores, o silêncio sucedeu ao crepitar do fogo nas horas do vento e ao ronco dos motores dos tratores, aceirando, dia após dia, sem cessar. Subitamente, como uma redescoberta, cada pessoa riu, reconhecendo um ruído maravilhoso, quase esquecido: a chuva tamborilava os telhados.



Impactos

A partir da tragédia de 1963, Batista revela que começou a trabalhar para evitar outras calamidades. “Foi preparado um sistema de alerta, que monitora e avisa sobre os perigos de incêndios florestais”.



Segundo ele, não se pode afirmar que nunca mais irá ocorrer um incêndio como aquele. “Existem formas de tentar prevenir e controlar as chamas. Mas não há estrutura suficiente para cessar imediatamente um fogo do porte do de 1963”.

O pesquisador Soares concorda. “Até hoje não existe no mundo tecnologia capaz de combater incêndios de grande intensidade. Nesse caso, somente mudanças climáticas podem resolver o problema.” Foi o que aconteceu no Paraná quando a chuva chegou.


Aconteceu!
Para valorizar o acervo do Museu e divulgar os acontecimentos que fizeram história em Tibagi, toda semana o diretor Neri Assunção, em parceria com a Assessoria de Comunicação da Prefeitura, desenvolve textos que relatam fatos marcantes na coluna Aconteceu!,no site (www.tibagi.pr.gov.br).


O Museu Histórico oferece trabalhos desenvolvidos em pesquisas e exposições temporárias. Permanece aberto de terça à sexta-feira das 8 horas às 11h30 e das 13 horas às 17h30. Sábados e domingos, a visitação pode ser feita das 9 horas às 11h30 e das 13h30 às 17 horas. Para agendamento, o telefone é(42) 3916-2189. A entrada é franca.


Texto: Assessoria de Comunicação
Pesquisa: Nery Aparecido de Assunção
Fonte: www.gazetamaringa.com e http://www.guiasjp.com
Revista Impacto – Jornalista Sady Osires Mercer Guimarães
Fotos: Arquivo Operação Paraná em Flagelo 1963 - Secretaria de Segurança Pública-Secretaria da Agricultura