Notícias: Imigrantes holandeses e a agricultura de Tibagi

on 01/04/2011 - 15:05 6334 reads A imigração holandesa ao Brasil comemora 100 anos em 2011 e também deixa sua influência em Tibagi, município da região dos Campos Gerais do Paraná que faz divisa com Carambeí, cidade onde a festa de 100 anos da chegada dos primeiros imigrantes acontece neste final de semana (entre 1 e 3 de abril).

Os primeiros holandeses instalaram-se em Tibagi quando sócios da Cooperativa Batavo compraram a Fazenda Fortuna na década de 1970. Com a inauguração do entreposto da Batavo na cidade, a agricultura cresceu, fortaleceu-se e tornou-se a principal atividade econômica do município, hoje maior produtor de trigo do Brasil. Em 2009, de acordo com o Núcleo Regional da Secretaria de Agricultura e Abastecimento (Seab), Tibagi produziu 88 mil toneladas de trigo em uma área colhida de 44 mil hectares.



É possível conhecer mais detalhes dessa história nos arquivos do Museu Histórico Desembargador Edmundo Mercer Júnior. O diretor da casa, Neri Assunção, pesquisou e separou os principais fatos que marcam a evolução da agricultura em Tibagi, desde o século 18. Acompanhe:



Mecanização

Em 1782 chegavam aos campos verdes de Tibagi centenas de famílias de distantes rincões à procura de diamantes nos rios, mas o desenvolvimento econômico e social do município acontece quase dois séculos depois, em 1968, quando a agricultura mecanizada passa a predominar entre as atividades rentáveis. Larga produção de trigo, arroz, soja, milho e polvilho mudam a economia de Tibagi a partir de então.

Neri explica que em 1950 o governador Moyses Lupion firmou acordo com as secretarias de Agricultura, Indústria e Comércio das prefeituras de Rio Azul, Tibagi e Malé. O Estado forneceu maquinário moderno e indispensável para a intensificação das culturas, abrindo caminhos para maior rendimento agrícola, em proporções compensadoras. “Foi o plano de motomecanização da lavoura e estes três municípios foram os primeiros contemplados”, conta o diretor do Museu. “Com a introdução da mecanização da lavoura agrícola, principalmente de soja e trigo, deu-se um novo pujante ciclo da história de Tibagi”, denota.



Nessa época, imigrantes holandeses que viviam na região dos Campos Gerais usavam as terras tibagianas mesmo não sendo proprietários delas. “Os holandeses arrendavam muitas áreas em Tibagi e começaram a aplicar calcário agrícola no solo, para corrigir a terra e melhorar a produção. Foi quando começaram a se preocupar em comprar as áreas, para não perder o trabalho feito no solo”, explica Neri.



Fazenda Fortuna

Propriedade da Indústria Klabin, instalada desde a década de 1940 no distrito de Monte Alegre, hoje cidade de Telêmaco Borba, grande área de terra foi motivo de muita negociação entre os imigrantes holandeses. A Fazenda Fortuna, com entrada pela PR-340 entre Castro e Tibagi, era almejada por vários grupos de agricultores, mas, sem pressa, a Klabin demorou a fechar negócio.

Neri Assunção relata que em 1971 a Klabin apresentou proposta de CR$ 2,5 mil por alqueire, o que equivalia a 4,3 mil litros de leite. A fazenda inteira de 3,3 mil alqueires valia, portanto, cerca de CR$ 8 milhões – proporcional a 1,4 vez o valor da produção de leite da Cooperativa Batavo de Carambeí, em 1972.

A primeira negociação foi frustrada e a Klabin recebeu outros interessados. “Eram agricultores que faturaram grandes lucros e ficaram impacientes. Entre eles estavam os irmãos Cornélio Haroldo e Rudolfo de Geus”, enfatiza Neri.



Nesse ínterim, o diretor e o gerente comercial da Cooperativa Batavo, Hendrik Kooy e João Eloi Miró, viajaram a negócios para São Paulo e procuraram o escritório principal da Klabin. “Eles foram recebidos por um dos diretores da firma, Jacob, que finalmente formalizou a venda. O dinheiro deveria ser depositado em conta no Banco Comercial de Curitiba. O contrato de compra e venda foi fechado então entre a Klabin e a Cooperativa Batavo”, pontua.


Redistribuição das terras

A Fazenda Fortuna foi loteada e revendida entre associados da Cooperativa. Cada participante recebeu o seu terreno e pôde começar a preparação das terras. Dois lotes ficaram sem destino por conta da qualidade inferior do solo e da topografia. A Cooperativa ficou com o lote da casa de fazenda, casas para empregados, estábulos e mangueiras – aproximadamente 80 alqueires. Outro lote de 40 alqueires foi vendido a um não agricultor que mais tarde transferiu a terra ao grupo Pereira. Neri informa que alguns proprietários venderam suas novas terras com bom lucro e compraram grandes áreas no município de Reserva. “Um deles lucrou um trator novo na negociação”, detalha.

Obstáculos surgiram na hora da escritura. Posseiros que já viviam sobre parte da área da Fazenda Fortuna requereram seus direitos e com isso impossibilitaram o registro legal de alguns terrenos em nome da cooperativa Batavo. Para chegar a uma solução, um representante dos posseiros foi convidado a discutir o assunto com a Diretoria Executiva da Cooperativa. “O diretor administrativo Ildefonso Quirino mantinha boas relações com este representante, de modo que rapidamente o assunto foi solucionado”, diz Neri. O impedimento legal foi superado com o pagamento de CR$ 100 mil aos ocupantes da terra.

As dificuldades ainda não estavam por completo sanadas. Na ocupação da fazenda pelos novos proprietários surgiram impasses com sócios da Cooperativa de Ponta Grossa que, como arrendatários de determinados terrenos, alegavam ter direito sobre a área. Também havia pequenos desentendimentos quanto à definição das divisas definitivas e desacordo sobre a habitação da sede da Fazenda, já que a diretoria havia liberado a casa para um de seus funcionários. “Mas estes problemas também rapidamente foram solucionados. A fazenda estava comprada e a meta de ter mais agricultores na Cooperativa com terras próprias foi alcançada”, aponta o pesquisador.

Armazém com 150 metros por 30 foi construído e em em 1º de setembro de 1972 houve a inauguração do posto de abastecimento Texaco que começou a fornecer óleo, combustível e lubrificantes aos associados.

Neri destaca que esse grupo de holandeses iniciou nova etapa na história da agricultura em Tibagi com a mecanização agrícola. “Leendert Cornélio de Geus foi um dos pioneiros desse processo”, adiciona. O sucesso da técnica do Plantio Direto na Palha, criado na região dos Campos Gerais e hoje copiado em todo o mundo, atraiu outros grandes agricultores para o município.



Diferente das cidades de Castro e Carambeí, onde os holandeses vivem em colônias, em Tibagi, os imigrantes fixaram residência na cidade de forma esparsa. “A cultura é preservada através da religião, com a Igreja Evangélica Reformada, e em muitos costumes. Mas de modo geral, a cultura dos imigrantes e das famílias que já viviam aqui estão indissociadas”, acentua Neri. “E tem muito mais história para contar. Faremos isso numa próxima coluna”, finaliza.

Compradores originais da Fazenda Fortuna:

Art Jan de Geus
Leendert Cornélio de Geus
Willen de Geus
Hendrik Barkema
Leedert Adrian Aardoon
Rudolfo João de Geus
Leonardo de Geus Netto
Wilhelmus Sleutjes
Johannes Sleutjes
João de Geus Sf.
Baastian Leedert Aardoon
Jacob Marius de Geus
Hinderikus Jan Borg
Cornelio Frederico de Geus
Haroldo Bernardo de Geus
Theoodoro Esser
Cooperativa Agropecuária Batavo Ltda



Aconteceu!

Para valorizar o acervo do Museu e divulgar os acontecimentos que fizeram história em Tibagi, toda semana o diretor Neri Assunção, em parceria com a Assessoria de Comunicação da Prefeitura, desenvolve textos que relatam fatos marcantes na coluna Aconteceu!, no site www.tibagi.pr.gov.br.

O Museu Histórico oferece trabalhos desenvolvidos em pesquisas e exposições temporárias. Permanece aberto de terça à sexta-feira das 8 horas às 11h30 e das 13 horas às 17h30. Sábados e domingos, a visitação pode ser feita das 9 horas às 11h30 e das 13h30 às 17 horas. Para agendamento, o telefone é (42) 3916-2189.


Pesquisa: Neri Aparecido Assunção
Fontes: Jornal Batavo (década de 1980); texto de José Cury publicado na Revista M Sales (década de 1950); Revista Tibagi, comemorativa ao centenário de elevação à cidade (1998), O Estado do Paraná (11/11/1973)
Imagens: Christian Camargo, Arquivo Museu Histórico/Badaró Braga e Célio Luiz Zapzalka